30.04.2020 / Moda / por

Live com Dudu Bertholini: "Quem não está se questionando não está vivendo o tempo presente"

Dudu Bertholini / Reprodução
Dudu Bertholini / Reprodução

Dudu Bertholini foi o convidado da nossa live de quarta-feira (29.04) e trouxe muitas falas potentes sobre o momento atual que vivemos em relação à moda, empatia, polarização do mundo e influência. Se você perdeu, leia abaixo os principais pontos:

Renovação e reinvenção

Muitos dos discursos que tínhamos antes da pandemia, agora estão sendo colocados em prática. Um ponto que sempre defendi muito é a multidisciplinaridade. Vai ser cada vez mais sobre as mensagens que as pessoas querem passar, o que elas têm pra comunicar, independente da plataforma que elas usam. Temos que ser especialistas no que fazemos e ter conhecimento de causa, mas vejo que hoje é mais entender quem somos como pessoas e qual a mensagem por trás do que fazemos. Se isso é por meio de styling, palestra, TV, tudo parte de uma mesma essência criativa. A relevância do seu discurso é o que vai prevalecer.

Através do seu trabalho no IED, como os jovens enxergam a moda hoje

Me perguntei há dois anos quando assumi o cargo coordenador no IED: qual é o papel de uma faculdade de moda hoje no meio de uma revolução na moda e no mundo? Minha reflexão vai direto aos anseios da nova geração. O estudante de moda hoje não pode mais acreditar que a faculdade é sobre mergulhar no próprio universo criativo. Qual a relevância do trabalho dele pro mundo a sua volta? Qualquer novo trabalho tem que ser pensado a partir da perspectiva do impacto positivo que ele pode gerar no mundo à sua volta. Se vc cria uma nova marca hoje em dia que está em nada alinhada com os novos propósitos, ela é um desserviço. Marca ainda é a plataforma que faz sentido? A gente incentiva eles a pensar em uma plataforma múltipla, ser capazes de fazer várias entregas. Essa flexibilidade que eu tanto insisto será necessária pra todos nós porque vamos ter a erradicação de muitas profissões e ascensão de outras que ainda nem sabemos e precisamos entender o potencial que a moda tem de ser relevante no presente e no futuro. Vemos uma presença muito maior no trabalho dos alunos de marcas que falam sobre moda inclusiva e sustentabilidade. Uma tendência interessante é o desejo de usar as redes sociais de uma forma mais crua, menos maquiada, mais realista, sem a ideia de colocar uma imagem perfeita por trás do feed num mundo que cabe cada vez menos o superficial.

Polarização do mundo

Uma reflexão que temos visto é o pensamento de que talvez o mundo vai ficar mais polarizado. Vemos shoppings abertos com aglomeração e sem a menor segurança, a Hermès vendendo milhões, estamos vendo várias mostras disso. Por outro lado, há o crescimento de um pensamento holístico, sustentável e empático. Então acredito que vamos ter os polarizados mais enaltecidos. Mais comunismo e mais consciência. Mas também vamos ver ainda infelizmente o enaltecimento do meio de produção ilegítimo. Essas demonstrações de consumismo de revanche apontam que ainda vamos ver modelos predatórios e que incentivam um comunismo desenfreado, enaltecendo a maneira antiga de se fazer moda.

Superficialidade da moda

A moda pode ser vista como atividade superficial e acho interessante uma fala do Gilles Lipovetsky que é muito atual. Ele defendia que, no final do século 20, a moda e a artes plásticas tinham perdido sua relevância como agente de transformação. Tivemos momentos ao longo da história, como quando a minissaia foi criada junto com a pílula anticoncepcional nos anos 60, onde através de uma peça de roupa a gente conseguia provocar uma mudança social. Quando ela consegue ser um gatilho dessa mudança, a moda se faz muito relevante. Quando chegamos no final do século 20, a tecnologia passa a dar ao mundo muito mais do que a moda e as artes, tanto que, diferente das prospecções dos anos 2000, a moda do século 21 começa a fazer um mash up de todas as décadas e estilos, mas nova propriamente ela não é. Agora, diante desse novo mindset, a moda volta a ter uma oportunidade de ser agente de transformação. E essa mudança não vem da estética, das cores e shapes, ela vem do propósito por trás da roupa que está sendo feita, erradicando trabalhos análogos a escravidão e sua forma de despadronizar as pessoas. Precisamos erradicar qualquer tipo de padrão. Temos esse compromisso inafiançável de estilhaçar padrões pra construir futuro. É uma mudança estrutural. Temos aí um movimento imediatista, mas sabemos que não é da histeria que vai vir a mudança.

Influenciadores e relevância hoje

Está cada vez mais evidente que existem muitos conteúdos banais e desnecessários e que ainda prestam uma deseducação. Nunca ficou tão clara a importância da gente compartilhar conteúdos relevantes, conhecimento, afeto e pontos de vista. Mas acredito que, por mais que saibamos que tenha muita live desnecessária e da overdose de conteúdo, é um reflexo natural e positivo. Acho que pós pandemia, vamos ter uma presença menor de lives, mas acho que a troca de conhecimento virtual veio pra ficar. Entre as falas que mais tenho escutado, uma do André Carvalhal diz que, se você é um influenciador ou uma marca que não sabe como comunicar agora e que está se sentindo sem graça em comunicar o seu conteúdo ou produto, talvez seja porque o seu produto nunca teve relevância. A questão da Gabriela Pugliese trouxe muito à tona a questão dos influenciadores. Nós, enquanto consumidores de conteúdo, o aval está muito mais na nossa mão do que na do influenciador hoje. A cultura do cancelamento prova que se o influenciador é um mal influenciador, você pode tirar a voz dele(a). Não acredito no linchamento virtual, do ódio, mas quando vejo movimentos que denunciam através das manifestos, acho muito positivo. Não queremos mais ser passível de ser influenciável. Queremos dizer assim: “eu só quero marcas e influenciadores responsáveis, que estejam em sintonia com os meu valores”. Até então as marcas diziam que elas se importavam com a gente, mas propunham uma conversa muito mais unilateral e agora isso já não faz mais sentido. Esse influenciador do futuro participa das decisões dessa marca e dessa empresa e o papel que ele representa está de acordo com aquilo. Portanto, esteja de acordo com aquilo que você fala, saiba se desculpar por aquilo que não sabe. Quem não está se questionando não está vivendo o tempo presente.

Marcas e responsabilidade

Vemos marcas doando milhões pra causas do Covid-19 e não dando segurança pros seus funcionários. Vimos no começo da pandemia uma febre por descontos que estamos vendo agora no dia das mães também. Não estamos diminuindo a questão da economia, estamos apavorados porque as perspectivas são que não vamos ter uma retomada em 2020 e sabemos que as marcas tem que responder a isso. Mas não adianta você achar que incentivar o consumismo desenfreado, encher a estrada de frete pra vender blusinha seja uma boa estratégia. Quem tá comunicando uma expedição segura, incentivando seu cliente a não querer receber seu produto no mesmo dia, se você sabe envia uma parcela do produto pra causas que realmente precisam, você está ajudando a fazer a diferença. Temos visto a valorização do artesão, do designer autoral, do pequeno empreendedor. Se nesse momento você não pode expor ninguém da industria, quem é que pode estar em casa trabalhando em segurança? O pequeno empreendedor, o artesão. Precisamos acreditar numa economia mais horizontal e que seja boa pra todos.

Falta de perenidade x valorização do produto

Infelizmente eu não acredito nessa salvação da pandemia, mas acredito num aceleramento de processos. Quando vemos um sistema baseado na sazonalidade e na rapidez, é a moda comendo o próprio rabo num ciclo cada vez mais acelerado e predatório. A moda está tendo uma oportunidade única de se repensar. As iniciativas conscientes vão explodir e vai ser um encontro do desejo do consumidor com a ascensão de gente produzindo com uma nova consciência. E isso não em volta porque partiu de uma escolha consciente e não influenciada por um marketing falsamente do bem. O futuro vem da comunhão entre a tecnologia e sustentabilidade, a tecnologia trabalhando a favor do humano.

reflexões pessoais

É um momento de repensar, repensar a si e o mundo a sua volta. Vamos transformar a nossa zona de conforto em lugar de luta e é importante abraçar as causas que são mais legítimas pra você. Para mim é trazer visibilidade e enaltecer a produção artística da comunidade trans e lgbtqia+, dos artistas não binários, das drag queens. Elas ficaram num movimento de muita vulnerabilidade. Por muito tempo a gente fica querendo reduzir a participação das pessoas trans à prostituição ou apenas ao universo da maquiagem (e não tem nada de errado com prostituição e maquiagem), mas a gente sabe que as pessoas trans são aptas a trabalhar em qualquer lugar e temos uma nova produção artística fantástica. Duas iniciativas é com o Marsha, festival feito por pessoas trans, uma galera maravilhosa que se articulou em pouquíssimo tempo e fizeram um festival online com uma vaquinha virtual. @marshaentranasala

E faço também um trabalho chamado As Corpas que Ocupamos, um projeto com a Fort, pra falar com mais profundidade do trabalho de 17 artistas entre trans, não binarias e drag queens. A moda não tem mais o menor direito de dizer como nos devemos nos vestir e parecer pra estar em sintonia com o mundo a nossa volta. Essa ideia acabou.


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