22.09.2020 / Moda / por

O Estado da Moda, 6 Meses Depois: Renata Correa, Editora de Moda

renata correa em sua casa, no centro de são Paulo
renata correa em sua casa, no centro de são Paulo

Este conteúdo é parte da serie de entrevistas “O Estado da Moda, 6 Meses Depois”. Durante o mês de setembro vamos conversar com os personagens da moda brasileira (diretores criativos, estilistas, criadores de imagem, empresários) para entender a visão de cada um sobre o momento atual e sobre o futuro da moda, seu passado recente e o que funciona e o que não funciona mais. Que essas conversas possam apontar caminhos.

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Renata Correa, editora de moda e um dos nomes mais requisitados no mercado de moda quanto o assunto é criação de imagem. Assina campanhas e desfiles para marcas e designers como Cris Barros, Neriage, Printing e editoriais de moda para a FFWMAG e Vogue Itália.

 

Quando isso começou, em março…

Eu estava em um momento inicial de preparo com as marcas para a próxima coleção.

O que mudou nesses 6 meses

Acho que estes 6 meses podem ser divididos em algumas fases. A primeira foi o susto, entender que o mundo todo havia parado, que estávamos em uma crise gravíssima de saúde e que não poderíamos ter, por um tempo, a possibilidade de ir e vir.

A segunda etapa foi a da conversa. Conversando com clientes, amigos e colaboradores, consegui entender um pouco a dimensão das privações de cada um e de como poderia ajudar as pessoas mais próximas a passar por este momento tão difícil. Neste período percebi o lado mais humano deste processo vendo várias pessoas se unindo e organizando apoios, intelectual e financeiro, discutindo e se mobilizando em prol de setores e pessoas mais fragilizadas.

O terceiro momento está sendo agora, na minha opinião. As atividades estão sendo retomadas mas ainda em um cenário de total descontrole do governo e de número de casos de contaminação por COVID-19. Neste cenário percebi uma diminuição das intenções de ajuda e uma retomada, muitas vezes irresponsável, de algumas pessoas ao trabalho de forma quase negacionista. Estamos ainda passando por uma pandemia. Acho que as atividades precisam voltar mas é muito importante que seja de forma consciente e ainda com algumas restrições. Isso me leva a acreditar que estes meses de paralização só levaram uma parte da população a obter uma consciência maior sobre a necessidade de mudanças de alguns conceitos no mundo .

Sobre pensar em desistir ou mudanças mais radicais

Não pensei em uma mudança de carreira e, sim, em uma reformulação. Comecei a retomar alguns trabalhos manuais que fazia como pintura e colagem. Tenho dado mais valor a peças artesanais. Acho que passamos muito tempo acostumados ao ritmo acelerado de imagens e postagens e tudo o que demandava tempo foi posto um pouco de lado. O isolamento me proporcionou questionar isso e testar mais esses processos manuais.

“Acredito que o mundo esteja clamando por uma excelência maior de produtos e serviços. Produzir menos e melhor. Isso é sustentável.”

Outro ponto é que comecei a estudar outras atividades complementares à minha profissão. Acho que não quero me encaixar como uma profissional que só faz um tipo de trabalho. Sempre me falaram:  “você tem que escolher uma profissão apenas”. Resolvi abandonar este conceito :)

Sobre os impactos das questões socioambientais e socioculturais mais urgentes

Bom, as questões citadas são muito diferentes para serem respondidas de uma só forma.

A questão racial é importantíssima e, infelizmente, discutida muito tardiamente. Ela não está restrita a indústria da moda. Ela está presente em todos os setores da sociedade e para que haja uma mudança real é necessário que nós, pessoas brancas, busquemos mais informação e reconheçamos nossa dívida histórica nos colocando como aliados para minimizarmos essa questão.

Sempre acreditei na informação e no diálogo para achar uma solução efetiva para os problemas. A internet acaba colocando discussões importantes de forma muitas vezes rasas ou as reduzida à frases de efeito. Acho que se cada indivíduo ou marca mais privilegiados na indústria fizerem uma ação (e não apenas um post bonito) a situação realmente vai mudar mais rapidamente. Pense no que você pode fazer que mudará de fato a vida de uma pessoa ou grupo. Isso tem que virar um compromisso de médio ou longo prazo.

Sobre a apropriação cultural, ela tem que ser questionada e banida se feita de forma irresponsável ou sem embasamento. Só temos que tomar cuidado para isso não matar a criatividade e criar um medo baseado na retaliação digital. Fazer uma homenagem imagética ou textual a uma cultura que não seja a sua, de forma respeitosa é super lindo e rico para a troca cultural.

Por último, sobre o impacto sócio-ambiental na moda, acredito que mais uma vez precisamos ser mais profundos para dividir a moda que faz um produto responsável e vê a roupa como um ofício, que passa pela forma de expressão individual, e a moda que faz roupa como produto com foco apenas na quantidade e lucro.

Nestes anos todos que estou trabalhando com moda conheci pessoas maravilhosas, apaixonadas por fazer roupa, querendo trabalhar cada vez melhor e com uma grande preocupação com o ambiente de trabalho. Tenho a sorte de trabalhar com clientes que prezam muito isso e sempre temos discussões sobre como melhorar.  O que quero dizer com isso é que devemos enaltecer e valorizar quem faz moda com respeito e devemos cobrar daqueles que só pensam nos números. A nossa indústria é uma das mais poluentes e esta crise de saúde e econômica trouxe questionamentos importantes. Precisamos da quantidade de roupas e acessórios que produzimos? Uma porcentagem absurda de ítens acaba em grandes aterros para descarte. Precisamos de coleções com tantas peças?

Este processo difícil que estamos passando deveria fazer com que pessoas e marcas focassem  no que é essencial. O que deve durar mais do que uma estação.

Como Rei Kawakubo disse em entrevista a Cathy Horyn: a moda descarrilhou de seu curso estável quando escolheu apenas o dinheiro.

“O realismo na moda veio para ficar mas é muito importante guardar o devido espaço para a fantasia e o escapismo.”

Sobre planos a curto prazo

Pensando, estudando e apreendendo a trabalhar de forma diferente. Meus planos a curto prazo são de finalizar tudo que já tinha iniciado pré-pandemia.

Sobre o futuro da criação de moda

Estamos em uma corda bamba. Quem não tiver estrutura e humildade para entender os novos tempos e paciência para entender a mudança, provavelmente irá cair. O meu medo após este processo são dois:

O primeiro é a substituição de uma linguagem mais conceitual para uma mais comercial. Nunca houve uma grande valorização do processo criativo no Brasil e a pandemia somada a consequente diminuição de orçamentos, deve piorar ainda mais este quadro. O que realmente acredito é que se eu, como empresa, estivesse passando por um momento de transição difícil só iria me cercar dos melhores profissionais, iria querer as melhores entregas. Acredito que o barato pode sair muito caro.

Meu segundo temor é que as pessoas insistam em colocar a moda como vilã.

Como disse acima, tem uma parte da moda que é vilã, mas uma grande parte que é inteligente, criativa, gera empregos, faz as pessoas sonharem. O realismo na moda veio para ficar mas é muito importante guardar o devido espaço para a fantasia e o escapismo. As pessoas estão cobrando uma postura política na moda mas acho que ela tem que coexistir com um certo lirismo. Se não tivermos fantasia na moda, no teatro, no cinema, na literatura, fico pensando em como seriam restritas e repetitivas essas narrativas.

Mas o lado positivo é que  acho que a criação de moda vai ser mais plural daqui pra frente. Não haverá um único jeito de fazer ou um caminho estético melhor. Existirão vários. O que for mais verdadeiro para um profissional ou marca é o que prevalecerá dentro do seu universo.

→ Ouça abaixo o episódio 11 do podcast Fashion Weekly sobre a profissão de stylist com Renata Correa


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