06.08.2020 / Moda / por

POTENCIALIDADES > Carol Barreto fala sobre Modativismo e o reconhecimento da autenticidade cultural preta

*Esse conteúdo é parte da serie POTENCIALIDADES com curadoria e produção de Jal Vieira 

Na última quinta-feira, o Potencialidades abordou a importância de se mostrar pessoas pretas vencendo e de como isso potencializa outras vivências ao caminhar na contramão de uma estrutura que alimenta a visibilidade da pessoa preta a partir – e tão somente – de uma imagem depreciativa desses corpos.

A fim de potencializar e fomentar cada vez mais existências pretas nos espaços, citamos alguns nomes de profissionais cuja trajetória influencia potencialmente e positivamente todo um coletivo. Em meio a esses nomes estava o de Carol Barreto, artista visual, designer de moda e professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, localizada em Salvador-BA, cidade onde mais de 90% da população é negra.

Carol que nasceu em uma cidade pequena chamada Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, tem seu primeiro contato com a moda ainda na infância, quando já ilustrava em cadernos de desenho da escola primária. Porém, “ainda reproduzindo as mesmas imagens de princesas loiras que eu via em todos os livrinhos com os quais eu fui deseducada.” Ainda criança, entendeu que aquilo poderia se tornar sua profissão quando, a partir da compra de uma revista de moda, percebeu que existiam escolas que ensinavam o que ela já transpunha em seus cadernos do jardim de infância.

No entanto, “a possibilidade da minha família custear estudos fora da minha cidade, especialmente, fora do estado – quem dirá fora do país – era bem remota. Então, eu fui entendendo que eu precisava construir minha trajetória e, analisando, nesse tempo inteiro, como é que eu poderia chegar ao meu objetivo de me formar designer de moda de maneira autodidata, e quais eram os percursos que eu precisava trilhar”.

Já na adolescência, teve conhecimento de que, na Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, havia um curso focado em moda. Então, entrou em contato com a instituição, na época, solicitando que lhe enviassem a estrutura do curso por escrito: “Aquele papel que eu guardava com todo carinho foi o meu roteiro de vida”.

“existe um recorte de raça/classe social que faz com que a maioria das pessoas negras cheguem numa graduação sem fluência [em língua estrangeira], diferente das minhas colegas brancas”

Vários eram os impeditivos que poderiam ter feito com que parasse por ali, já que a academia lhe exigiria, para além das habilidades com costura e modelagem, o conhecimento de idiomas como o francês e o inglês e que, aqui, “existe um recorte de raça/classe social que faz com que a maioria das pessoas negras cheguem numa graduação sem fluência [em língua estrangeira], diferente das minhas colegas brancas”. Ainda assim, todas essas competências foram sendo galgadas pela designer de maneira autodidata.

Se entendendo como mulher negra desde muito pequena, Carol compreendeu o papel do racismo em sua vida e na vida das pessoas de sua comunidade, e que isso à colocava na condição de ter que se dedicar ainda mais aos estudos. O seu ingresso na universidade pública gratuita – que sempre defendeu – foi um elemento transformador em sua vida, “juntamente com o apoio não apenas financeiro, mas, sobretudo, afetivo de minha família”, que desde o seu primeiro desfile, em 2001, compõem a sua equipe de trabalho. 

Seu trabalho alcançou visibilidade internacional estando presente em semanas de moda em Paris, na França, Dakar, no Senegal e Luanda, na Angola. Além de já ter sido exposto em galerias de arte pelo mundo como em Chicago e Nova York, nos Estados Unidos, Toronto, no Canadá, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, no Brasil, Cidade do México, no México, entre outros.

Hoje, levando em consideração todos os seus questionamentos enquanto intelectual e profissional da área e, se entendendo para além de designer, mas como agente transformadora no meio, Carol autointitula seu trabalho acadêmico e prático de artista como Modativismo:

“Na minha narrativa, tanto cronológica como de todas as reflexões intelectuais que eu tenho feito nesses anos todo como professora, como pesquisadora, como artista visual, enfim, vi a necessidade de criar o termo Modativismo para me entender, para me autodescrever, pra entender que se eu me apresentasse apenas como designer de moda não era suficiente, como artista visual também não seria, como ativista também não, como pesquisadora também não e, também, partiu de uma reivindicação para que o nosso campo da moda fosse entendido e fosse respeitado como campo de luta política por relações raciais de gênero e de sexualidades minimamente respeitados”. E completa: “Modativismo é um conceito e não apenas um nome. Ampara um aporte metodológico decolonial, uma forma de produzir vestuário que não se encerra na matéria em si, mas cujo processo, muito afinado com arte conceitual fenomenológica, considera o processo criativo-produtivo como parte indissociável do resultado apresentado e que não se encerra na apresentação desse resultado.”

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Coleção Linhas Vivas – Foto: @natan.fox | Modelo: @lorrainecruzes | Styling: @jufonseca_d e @fashion_tint – Imagem de moda: @sika_caico

Para além do conceito, hoje, o Modativismo é também uma organização com uma equipe física fixa e com curadoria de Ju Ci Reis. Além de um grupo de mulheres designers e colaboradoras do projeto, iniciado há 7 anos atrás.

Mesmo já lecionando em cursos de extensão, participando de grupos de pesquisa e tendo orientadores na sua área de pesquisa, Carol, em sua carreira acadêmica, teve uma monografia sobre moda não autorizada, tardando uma de suas formações:

“A justificativa da professora é que aquilo não era um tema acadêmico o suficiente. Então, eu me retirei da turma, me retirei da sala, fiquei mais um semestre cursando disciplinas que eu pude escolher como Filosofia e outras de História da Arte. E aí voltei no semestre seguinte dizendo à ela que eu só poderia me formar se eu escrevesse sobre aquilo que eu já fazia e pesquisava”. A resposta que teve da professora foi de que precisaria comprovar por meio da apresentação de três artigos científicos que aquele era um tema de pesquisa, e só então a permitiria escrever sobre.

“A minha permanência na academia se deve tanto à essa minha demanda de me formar artista, de me formar designer de moda, de me formar modativista – como eu tenho me intitulado –, mas também como resultado desse processo de reivindicação pelo reconhecimento do campo da moda afro brasileira como área de produção de conhecimento legítima”. E completa: “Traçando uma linha de pesquisa sempre pensando para além do vestuário, para além do corpo, entendendo esse corpo como esfera biopsicossocial e, portanto, como elemento indissociável da nossa cultura e da nossa sociabilidade”.

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Coleção Asè – Foto: @helensalomao | Modelos: @lumamora / @anita_jcosta e Carla Akotirene | Jóias: @silvanagrappijoias | Beauty: @sika_caico | Produção de Moda: @flowprodutora | Assessoria técnica: @cllaudiasoares | Locação: @centrotca

Hoje, suas pesquisas pensam as relações de gênero, sexualidade, hierarquias raciais e os modos de produção da imagem de maneira, segundo a artista, “imbricada com os marcadores sociais da diferença e a produção do poder: As imagens de autoridade e de subalternidade que são elaboradas sobre e para outras corporalidades que não sejam aquelas hegemônicas”.

Abaixo, você pode conferir mais da conversa que o Potencialidades teve com a artista:

Potencialidades – Como docente, quais embates você enfrenta na academia e quais defasagens são veladas nessa estrutura acadêmica?

Carol Barreto – Durante dez anos eu fui docente de Design de Moda de todos os cursos que foram ofertados na cidade até o ano de 2011, quando eu ingressei na Universidade Federal da Bahia, a partir de concurso na área de Gênero, Cultura e Linguagem, onde eu pude elaborar sobre o viés teórico o pensamento das expressões dos discursos e das ideologias por meio da aparência da corporalidade e da moda, consequentemente. Então, meu ingresso no Bacharelado em Estudos de Gênero na UFBA acabou, também, ratificando um percurso dissonante que eu tinha escolhido pra me formar designer de moda e para me entender como pesquisadora da área que me levou a um campo de atuação onde hoje eu consigo compreender a complexidade da nossa produção de aparência, da nossa produção de imagens de moda e de imagens artísticas na elaboração, não só de auto estima, mas principalmente da expectativa de vida das pessoas, especialmente quando a gente fala das pessoas negras sobre hierarquias raciais, sobre a maneira como o meu fenótipo, o tom da pele, o formato do nariz, forma de cabelo são elementos visíveis e que são compreendidos como uma narrativa de origem, como potencialidade que, inclusive, é o nome dessa coluna. Ou seja, por meio da minha aparência, eu sou enquadrada pela pessoa hegemônica como passível ou não de determinada potencialidade. É nesse contexto problemático que também acontece a entrada do meu corpo nesse universo que é a UFBA. Onde, até alguns anos atrás, mulheres negras compunham apenas um total de 3% de docentes concursadas nesta instituição, mesmo em Salvador, cidade de maior população negra fora do continente africano.

Então, quando você me faz essa pergunta, eu posso relatar desde a minha própria resistência corpórea nesse espaço físico e o quanto isso aciona o racismo institucional.

Eu ingresso aos 31 anos como professora concursada desse universo com o título de mestre. Mas no meu concurso foram diversas doutoras que concorreram. E, obviamente, mesmo tendo ingressado aprovada em primeiro lugar, essa colocação e esse mérito não eram contados. Eram contados, sim, o corpo estranho de uma mulher preta jovem numa sala de aula ou indo buscar o equipamento para dar aula. Então, esse questionamento: “é estagiária?”, “é tirocinista?”, “é estudante?” me acompanha até hoje. Significa que, ótimo que eu estou ainda jovem. Maravilha (risos)! Mas a gravidade da coisa é que somos poucas, e que, a minha colega branca, mais jovem, consegue expressar, a partir de sua aparência – não interessa a roupa que ela vista ou a idade que ela tenha -, autoridade diante das pessoas que compõem o nosso grupo de trabalho dentre colegas docentes, funcionários e funcionárias e, desde a minha dificuldade de ocupar com o meu carro a vaga de docente, no estacionamento, e de já ter sido, objetivamente, expulsa; de já ter tido problemas de tentativa de violência física com estudantes de outros cursos que adentraram a minha sala e que, não reconhecendo aquele corpo como um corpo de autoridade, me ameaçaram. E nem o socorro imediato da segurança patrimonial do campus eu pude garantir. Então, a gente entende determinadas vitórias ingressando nesses espaços de poder – porque o espaço de produção de conhecimento é um espaço sofisticadíssimo de experiência e de produção de poder – ao mesmo tempo em que a gente se entende lutando sozinha.

“Como eu posso dar aula em História da Moda falando só da roupa da Maria Antonieta, quando a gente não conhece nenhuma rainha africana, nem as respeitamos como tal e, muito menos, sabemos os feitos de mulheres negras brasileiras, baianas do Recôncavo que têm um papel importantíssimo na trajetória do país, como a própria Maria Felipa?”

 

Não é só uma questão quantitativa, mas uma questão que se refere a estrutura institucional para a permanência, não apenas de discentes – estudantes negros e negras, indígenas, quilombolas, etc, como a gente tem constituído por meio de várias ações afirmativas, pró-reitorias específicas para o atendimento dessas pessoas e maneiras de que consigam ter uma carreira acadêmica de excelência –, mas sobre a permanência de nós docentes. É uma coisa que a gente ainda tem que lidar isoladamente. E quando a gente fala desse isolamento – e eu acabei de falar sobre a minha presença física corpórea –, quando a gente pensa nas questões epistemológicas, ou seja, dos parâmetros para a produção do conhecimento, quando a gente conta com a presença de uma mulher negra – que se entende como mulher negra e entende as demandas em termos de capital intelectual para a produção desse conhecimento –, eu assumo para mim, também, um sobretrabalho, porque os componentes curriculares não são feitos com base na nossa cultura, na nossa epistemologia. Então, se eu recebo determinado livro, determinada disciplina para ministrar, eu preciso redesenhá-la. Foi assim durante os 10 anos que eu fui docente em Design de Moda. Como eu posso dar aula em História da Moda falando só da roupa da Maria Antonieta, quando a gente não conhece nenhuma rainha africana, nem as respeitamos como tal e, muito menos, sabemos os feitos de mulheres negras brasileiras, baianas do Recôncavo que têm um papel importantíssimo na trajetória do país, como a própria Maria Felipa? Eu fui premiada, inclusive, no Prêmio Maria Felipa, recentemente. E me dá a honra de pensar que apenas entre a gente, infelizmente, conseguiremos alterar o curso – em amplo sentido – de produção de conhecimento para que nós, pessoas negras, sejamos formadas academicamente, profissionalmente e, especialmente, como seres humanos, a partir de uma lógica cultural que nos respeite.

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Coleção Asè – Foto: @helensalomao | Modelos: Carla Akotirene | Jóias: @silvanagrappijoias | Beauty: @sika_caico | Produção de Moda: @flowprodutora | Assessoria técnica: @cllaudiasoares | Locação: @centrotca

P: O ambiente acadêmico não é a realidade para a maioria da população preta, justamente, porque o acesso dessa população à educação básica já é negado estruturalmente. Portanto, a chegada até a academia é extremamente afunilada e poucos alcançam essa realidade. Qual a sua opinião sobre?

C.B.: No meu ingresso na UFBA, especialmente no perfil das graduações onde eu leciono, eu percebi como muito importante, nesse sentido, a imensa maioria das e dos estudantes com os quais eu trabalho cotidianamente serem pessoas negras. Então, a felicidade de falar desde o mesmo lugar de existência é ímpar. Não apenas do nosso modo de falar – vamos dizer assim –, mas especialmente na elaboração de um modo de construção de conhecimento e, consequentemente, de mensuração da produção desse conhecimento que é específica. Se eu, pessoa acadêmica, profissional, não me for bem apenas com os livros, entendo intelectualidade como algo produzido desde todas as formas de organização social pretas que são extremamente sofisticadas, mas que não são elaboradas por meio da escrita ocidental, como a gente compreende e valida, a partir dessa mentalidade que conformou nosso país colonizado. Então, a partir do momento que eu entendo que a minha formação como intelectual se deu tanto nas ruas das minhas cidades, nas rodas de samba, nas rodas de capoeira, na feira livre, nos terreiros de candomblé e umbanda, em toda a sociabilidade que o povo preto elaborou como modo de resistência, transformando toda essa dor numa beleza de uma convivência que tem uma lógica muito específica, que a gente sabe do que estamos falando, é que eu posso comunicar e produzir conhecimento com e para as minhas estudantes de uma outra maneira. Então, essa chegada à academia é, sim, extremamente afunilada. Especialmente quando a gente fala das universidades federais que são escolas de altíssima excelência, que prezam pela produção do conhecimento para além da sala de aula, compondo essa excelência acadêmica como indissociável dos projetos de extensão da pesquisa acadêmica que é o que nos possibilita alterar esse capital intelectual que está rodando e circulando. E quando eu falo de capital intelectual, no momento que eu estou escrevendo sobre o assunto tal, geralmente eu só tenho autores que são homens brancos heterossexuais ocidentais para citar. Então, a gente consegue alterar esse capital acadêmico no momento que a gente tem estrutura e recurso de pesquisa para produzir escritas, experiências, laboratórios…

“…cada artista, cada marca de moda, cada intelectual que depois de muitos anos de luta consegue ter o mínimo de visibilidade, é uma vitória que é coletiva. Nenhum feito nosso é individual.”

 

P.: Qual a sua opinião sobre pessoas brancas transferirem a responsabilidade da discussão sobre o racismo a pessoas pretas, enquanto esta primeira não discute a branquitude e suas responsabilidades com essa pauta?

C.B.: Eu acabei já respondendo nesses comentários anteriores. Mas elaboro sobre a seguinte perspectiva: foi o meu entendimento como ativista, sob a perspectiva de uma pessoa que, compreendendo o lugar de subalternidade que foi definido de fora para dentro – é uma posição que me foi imposta e imposta à minha comunidade pelo racismo estrutural e por uma história de violência e de sangue muito brutal. Não foi opção nossa, não foi escolha, nem foi por conta de pouca reação, nem docilidade, nem de aceitação – e ciente desse lugar incômodo, desde muito cedo, que eu entendi essa necessidade do ativismo como uma luta individual e coletiva para alterar o lugar compulsório de existência, que acaba nem sendo de existência, mas de sobrevida que nos restou. Então, discordando dessa sobra e de uma trajetória que eu pudesse apenas sobreviver e não viver ou existir, no sentido filosófico, é que eu entendi que eu precisava estudar muito pra entender qual é a minha possível origem – que é uma inferência –, quais são as minhas bases culturais para que eu pudesse elaborar, saber/poder, a partir daquilo que a minha sociabilidade sempre me deu, no meu cotidiano. Então, não é agora que as pessoas brancas estão interessadas ou pseudo-interessadas em contribuir que a gente tem a obrigação de servir de livro para essas pessoas. Estamos em 2020, a quantidade e a qualidade de publicações é extensa – dos livros que foram mais popularizados. Antes dessas publicações se popularizarem, a produção acadêmica científica de cultura oral, de resistência de cultura popular é ancestral. Então, são olhos, ouvidos e sentidos que precisam se abrir a partir de um deslocamento de lugar de privilégio mesmo. A gente não tem responsabilidade com essa pauta. Nós temos responsabilidade em nos fortalecer mutuamente, em reconstruir e desconstruir uma mazela muito imaterial que o racismo nos deixou, que foi nos desagregar, fazer com que algumas de nós enxerguemos umas às outras como antagonistas e não como protagonistas diversas de uma mesma narrativa e que nunca vai ser igual.

Portanto, cada artista, cada marca de moda, cada intelectual que depois de muitos anos de luta consegue ter o mínimo de visibilidade, é uma vitória que é coletiva. Nenhum feito nosso é individual. As nossas comunidades, tradicionalmente, nunca viveram centradas no indivíduo. A nossa própria existência é uma fusão de deidade com humanidade. Isso é o axé pra gente!

P.: Como você vê o atual cenário pandêmico que temos vivido, especialmente aos profissionais de moda?

C.B.: A gente viu recentemente, tanto com toda a crise racial imbricada com todos os outros marcadores sociais da diferença – classe social, gênero, sexualidade, geração, acessibilidade, dentre outros – se agravar bastante. E a gente sabe que pós pandemia temos um compromisso muito grande e duro para que a gente possa se recompor. Porque o pouco dessa caminhada que a gente andou foi destruído muito rapidamente. É um país que preferiu se suicidar do que tolerar minimamente o crescimento das pessoas que estavam habituadas a verem sempre como inferiores. Então, para profissionais de moda negros e negras – não para todas e todos profissionais de moda –, o nosso modo de resistência como modo de organização coletiva vai precisar se aprimorar muito. A necessidade da gente entender – alguns veículos de comunicação têm se mostrado até interessados em falar um pouco do nosso trabalho. Mas com que nível de respeito? – que é um caminho também pra gente entender que ninguém vai dar nada à gente e que precisamos construir independência. Obviamente que essa independência demanda muito capital financeiro e intelectual. Portanto, esse mapeamento de quem são todas as forças produtivas que podem se aliar para que a gente possa transformar inicialmente o entendimento do que é moda pra gente – que não é apenas roupa! Roupa não é apenas jamais! Aparência não é apenas aparência jamais! – que pensa a importância da aparência, da corporalidade, do vestuário e da moda como aspecto intangível. Não pensando a moda somente como aspecto material do vestuário. Mas como elemento de expressão de autoconhecimento, de autonomia, de elaboração de um outro curso de existência que não precisa mais mimetizar a branquitude para pensar que teria qualquer tipo de aceitação. Então, é produzindo essa radicalização cognitiva, esse entendimento do conceito de afrofuturismo como uma responsabilidade nossa, como comunidade negra de elaborar imagens – eu penso imagem de uma maneira muito mais ampla do que a imagem visual – positiva e profícua para e sobre a população negra. Um compromisso que a gente firma aqui, e que, ao mesmo tempo, a gente percebe que é um caminho que não tem volta.

O nosso cabelo não é uma tendência, o uso da capulana como material têxtil para as nossas roupas não é tendência, também. É, sim, produção de conhecimento afro referenciado, com entendimento de que a gente, na construção da moda afrobrasileira, não necessariamente responde a um padrão único, porque somos pessoas negras resultantes de uma diversidade de culturas e de posicionalidades enorme.

 


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