10.04.2017 / Gente / por

Arte, política e pretensão: conversamos com Dan Fox, co-editor da revista Frieze

©Reprodução
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Por Luísa Graça

Há pouquíssimo tempo, a revista Frieze teve seu design repaginado para criar um estilo “menos bonito” e “mais marcante e surpreendente”. Até então, o visual da publicação de arte contemporânea, fundada em 1991, pendia para uma estética elegante e equilibrada, mas busca agora refletir o cenário da arte atual de maneira mais direta: tem a ver com reação e fazer statement – e numa vibe noventista.

‘Quão importante é a arte como forma de protesto?’ é a pergunta que estampa a capa da edição de abril/17, que conta com 50 artistas, curadores e escritores de mais de 30 países diferentes, dividindo nas páginas da revista suas respostas, com textos e imagens, impulsionados pela observação do cenário político caótico em todo o mundo. Arte como resistência foi também tema de uma das conversas promovidas pela organização da SP-Arte, na última semana, que trouxe um dos co-editores da publicação como palestrante.

Dan Fox, jornalista e crítico de arte britânico com formação em Artes, encontrou seu gosto por arte ouvindo discos de David Bowie e The Velvet Underground – “foi assim que descobri quem era Andy Warhol. Fui introduzido à arte via cultura pop”. Natural de Oxford, ele começou a trabalhar no escritório londrino da Frieze – que também gere as feiras de arte de mesmo nome em Londres e Nova York -, como estagiário, atendendo a telefonemas e servindo café. Hoje, ele é o editor que encabeça a equipe da revista em Nova York – e tem também um selo independente de discos (que super vale conhecer) e é autor do livro Pretentiousness – Why it matters.

Em sua passagem por São Paulo, entre visitas a museus e galerias, Fox separou um tempo na agenda pra conversar com o FFW sobre o cenário atual da arte, publicações independentes e um certo palavrão.

Como você enxerga o cenário da arte hoje? O que gosta e desgosta a respeito dele?
Acho que, por um lado, estamos num momento histórico bastante conservador. Há muita reciclagem de ideias e as pessoas tendem a perseguir o que lhes é familiar. Muitos artistas tem feito arte que se parece com arte, porque sabem que vende. Mas acho que há também uma conversa entre gerações que é muito saudável. Muitos artistas ignorados no passado tem sido re-descobertos por jovens artistas e com isso são descobertas novas formas de fazer arte e de viver. Não sei se esse é o caso aqui no Brasil, mas percebo isso claramente no Reino Unido. Há muita informação circulando também, o que é ótimo, em geral. Contudo, toda essa informação pode ser um pouco ruim porque para descobrir seu caminho na arte há um estágio do “não saber” que é bastante útil.

Com o caos político e social atual, você acha que a arte tem um papel político a desempenhar?
Sim. Não acho que arte por si só pode mudar alguma coisa, seria ingenuidade pensar assim. Mas arte é importante, indiretamente, por ocupar um determinado espaço. Um espaço em que gente que produz objetos e imagens sugere diferentes maneiras de viver e enxergar a vida e diferentes perspectivas de mundo. O próprio fato de que há pessoas usando o tempo delas para isso, manda uma mensagem. O momento em que você para de fazer arte porque está tudo perdido é quando forças conservadoras reacionárias encontram espaço. É importante que existam pessoas escrevendo livros, fazendo filmes e aquarelas. De certa forma, o que elas fazem não importa tanto quanto o fato de que estão fazendo algo. Isso nos mostra o que temos em comum. Precisamos nos lembrar da nossa humanidade. Sei que parece vago, mas acho importante que existam coisas que reafirmem que as pessoas podem fazer outras coisas além de pensar em ganhar dinheiro e cometer atos terríveis de violência e preconceito.

Capa da Frieze, abril/17 ©Reprodução
Capa da Frieze, abril/17 ©Reprodução

E com esse descontentamento, talvez muita gente encontre na arte uma nova forma de se expressar, não?
Sim. Durante a palestra comentei que há muita gente fazendo cartazes para protestos nos EUA, tanto que as vendas de materiais de arte aumentaram em 33% lá. Mesmo que isso não as desperte para uma carreira na arte ou coisa assim e que seja só para fazer um cartaz e jogar no lixo depois do protesto, as pessoas tem encontrado uma outra maneira de comunicar algo, de se fazer ouvidas. A arte é muito efetiva nesse sentido.

Parece haver um boom de publicações impressas independentes. A que você atribui isso?
Esta é um ótima pergunta porque se você parar para conversar com qualquer pessoa que trabalha no mundo editorial, vai ouvir que ele está em crise. Há um monte de jornais e revistas fechando em todo canto. Mas parece um momento incrível para publicações pequenas – ainda não descobri por que. Em NY, há uma cena ótima de periódicos literários com ensaios, ficção… e de arte também. Mal consigo acompanhar. As pessoas ainda amam o aspecto tátil das revistas. É um objeto bonito. E se esse objeto sai 3 ou 4 vezes ao ano, é mais fácil de querer comprar. E acho que, além disso, existe um maravilhoso elemento de loucura otimista por parte de quem faz essas publicações.

O fato de ser um objeto bonito pode ser mesmo uma pista.
É, a feira de livros da Printed Matter, que acontece no MoMA PS1, é o evento mais visitado do ano em NY, mais do que qualquer exposição de arte. Você vai a uma feira como essa e consegue comprar alguma coisa com 20 dólares. Você sente que é um objeto a quem alguém dedicou muita energia e criatividade para fazer. Se você vai a uma exposição, não pode voltar com uma pintura para casa. Talvez tenha a ver com o fato de que você se torna parte de algo e não vai embora de mãos vazias.

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Feiras de arte no mundo todo parecem estar a todo vapor também. De que maneira eventos como a SP-Arte afetam, de fato, o mercado da arte?
Acho que a quantidade de feiras tem gerado uma certa exaustão. Galeria e artistas têm tido dificuldade em acompanhar. No lado positivo, as galerias têm feito mais dinheiro. As pessoas se apressam em criticar esse aspecto, mas é assim que artistas sobrevivem: com o dinheiro que fazem em feiras e aberturas em galerias. A economia da arte é muito complexa – não é uma questão se é boa ou ruim, é as duas coisas. Ninguém entende como o mundo da arte funciona e quem diz que entende, está mentindo.

Você lançou um livro recentemente que tem um título no mínimo curioso: Pretentiousness: Why it matters. Quer dizer que pretensão não é mais um palavrão?
Ainda é [risos], mas não deveria ser. A gente sempre parte da ideia de que pretensão é algo muito ruim: arte que finge ser melhor do que realmente é. Mas, na verdade, muitas das coisas que a gente gosta, soam “pretensiosas”. Como o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Imagine: “um álbum conceito sobre uma banda de circo eduardiana imaginária com referências de música clássica e indiana, feito por um grupo de garotos autodidatas de classe trabalhadora”… E esse final é importante porque a palavra pretensão também se tornou uma ferramenta para policiarmos classes sociais e dizer que alguém está atuando acima da posição que deveria. É muito cruel negar a alguém a oportunidade de criar algo, de escrever algo. Não importa se uma obra é boa ou ruim, o importante é que as pessoas tentem e se deem a chance de criar. A gente sempre deve dar o benefício da dúvida. Se você reprime a criatividade de alguém, está negando a humanidade dessa pessoa. E todo mundo é pretensioso em algum nível, né? As roupas que a gente veste, como nos comportamos em certas situações… Todo mundo finge um pouco.

Sendo crítico de arte, às vezes não é difícil se desligar do seu senso crítico e abraçar essa ideia de que “o importante é se dar a chance de criar, seja algo bom ou ruim”?
Sim! Eu tenho consciência de que às vezes sou impaciente com o que vejo, ‘um expert convencido’. Mas apesar do conhecimento que tenho numa determinada área, eu ainda não sei tudo sobre ela, então, também sou um amador. Existe todo um espectro de amadorismo em que todos nos encaixamos, na verdade. Estou ciente das minhas deficiências, mas contanto que sejamos sinceros, fica tudo bem. E tudo bem ter uma opinião também. Mas uma coisa que eu nunca fiz foi chamar algo de pretensioso [risos]!


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