04.09.2017 / Cultura / por

O universo multicolorido, pop e simbólico do artista Alex da Corte, diretor do novo videoclipe de St. Vincent

A instalação Slow Grafitti, no museu Secession, em Viena ©Reprodução
A instalação Slow Grafitti, no museu Secession, em Viena ©Reprodução

Por Luísa Graça

Herdeiro da escola americana de arte pop, o artista visual Alex da Corte faz de seus vídeos e instalações, tão maximalistas quanto cativantes, um universo colorido em tecnicolor, cheio de humor absurdo e objetos esculturais improváveis. Uma caixa gigante de Kleenex, um cisne motorizado feito em plástico, uma garrafa de Coca-Cola. Seguindo a linha de seu portfolio autoral, exibido em museus e galerias como White Cube, em Londres; Whitney, em NY; e Secession, em Viena, Alex acaba de lançar um novo trabalho comercial: um videoclipe para o single de estreia do novo disco da cantora e compositora Annie Clark, a St. Vincent.

Para ilustrar a faixa New York, uma balada bonita e inspirada, Alex transportou suas cores e objetos curiosos (inclusive um cisne de verdade, que atende por Boo) para uma Nova York estilizada: tem floricultura, bodega, karaokê, uma recriação do piano da F.A.O. Schwarz e, claro, duas obras de arte que ocupam as ruas da cidade: The Wall e Alamo Cube. Essas duas esculturas serviram como ponto de partida para a criação do vídeo.

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“Acho que muitas pessoas tem ideias diferentes do que Nova York é, não existe ideia certa ou verdadeira. Essas duas esculturas são lindas porque elas por si só expressam uma ideia bastante formal da cidade. Um cubo, uma rede – ou um retângulo numa grande rede, isso é uma cidade”, explicou o artista em entrevista ao Pitchfork. “É uma versão embaçada, fragmentada, sonhadora e plana de Nova York”.

Clark aparece em cena em diversos cenários que transpiram a estética de da Corte e torna-se ela mesma um “elemento escultural improvável” habitando os ambientes criados por ele a bordo de roupas vibrantes e em poses quase imóveis ou coreografadas, sentada sobre um sofá partido ao meio, cantando com um repolho em chamas como microfone e por aí vai. Participam ainda de uma cena, quatro modelos, uma delas a brasileira Bruna Tenório.

Tudo isso dialoga com a identidade visual que a cantora vislumbrou para o novo disco, conforme ela explicou recentemente à ELLE Brasil: “É uma estética quase maniqueísta, eu diria. Na superfície é tudo radiante e feliz, mas são cores agressivas se você prestar atenção. As roupas ficam no limiar entre o sexy e o cômico. É um disco sobre sexo, drogas e tristeza”.

Da Corte não é estranho a colaborações musicais. Uma de suas exposições mais recentes, Slow Grafitti, cujo título foi inspirado numa faixa da banda escocesa Belle and Sebastian que faz referência ao livro O Retrato de Dorian Gray, contou com música original de Dev Hynes, do Blood Orange. A instalação ocupa desde o início de agosto os 6500 metros do já mencionado museu austríaco com uma “discoteca alienígena” – segundo o The New York Times, com carpetes multicoloridos, paredes de veludo, luzes neon, bancos, guarda-chuvas, um galo de brinquedo.

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Slow Grafitti, no Secession ©Reprodução

Espécie de antropólogo do presente e passado imediato, Alex ressignifica objetos e materiais baratos e comuns como borracha e caixas de cereal e ícones do mundo capitalista dando a eles um novo potencial simbólico e formal. De quebra, questiona ideal de “bom gosto”. “Eles representam um outro tipo de linguagem que podemos justapor para criar novas frases que tornam-se poesia”, explica o artista. “Contexto sempre dá nova pele aos objetos que, às vezes, propõem novas funções, descobertas…”.

Isso tudo, claro, injeta um punhado de surrealismo e senso de humor à sua arte, sem faltar sinceridade, críticas afiadas sutilmente colocadas e um pouco de melancolia. Digamos que são narrativas pessoais que abordam desejos e delírios coletivos a partir de uma estética da cultura comercial, carregada de simbolismo. É por isso, talvez, que o vídeo que criou para St. Vincent, mesmo longe das paredes dos museus, consegue comunicar suas ideias e visual a um público abrangente.

A instalação Free Roses, exibida no MASS MoCA, em janeiro/17
A instalação Free Roses, exibida no MASS MoCA, em janeiro/17

“Todo o meu trabalho é relacionado a como nossos desejos são moldados pelas coisas que vemos na TV e sobre como aspiramos acessar o que desejamos e atravessar a tela”, explica. “Imagens em movimento ou vídeos, com música ou não, são trabalhos artísticos por si só. O que é realmente especial num videoclipe é que ele pode ser compartilhado tão rapidamente. Todo mundo tem acesso. É muito livre”.

Entretanto, o próximo projeto de Alex, que vive na Filadélfia e cresceu entre Nova Jérsei, nos EUA, e Caracas, na Venezuela, é mais uma instalação em grande escala. E já tem nome e data de abertura: The Harvest Moon passa a estampar a fachada do New Museum, em Nova York, a partir de 28.09, como retomada de um projeto da década de 1980 do museu, que contou com a participação de artistas como Jeff Koons e Bruce Nauman.


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