06.12.2018 / Arte / por

Charlotte Prodger: artista que filma com celular é a vencedora do Turner Prize 2018

Charlotte Prodger, vencedora do Prêmio Turner 2018 / Reprodução
Charlotte Prodger, vencedora do Prêmio Turner 2018 / Reprodução

Uma artista que faz fotos e filmes no iPhone e aborda sexualidade, gênero, identidade queer e raízes venceu o Prêmio Turner deste ano.

Charlotte Prodger conquistou o juri com seus dois filmes, Bridgit e Stoneymollan Trail, e levou para a casa o prêmio de £25 mil.

Se todo mundo fotografa e filma com um celular, obviamente há muitos artistas usando o aparelho como maneira de criar conteúdo com alto valor artístico (Tangerine, de Sean Baker, e Unsane, de Steven Soderbergh, são alguns exemplos). Usar o celular faz sentido para Prodger porque dá a ela liberdade, total privacidade e baixo custo para criar. Bridgit, por exemplo, é um filme super íntimo em que aborda sua própria experiência de se revelar gay enquanto morava em uma região rural na Escócia. Essa real intimidade só pode acontecer nesse caráter autobiográfico. É bonito ver isso acontecer em meio às paisagens bucólicas escocesas – a maior parte das narrativas queer acontece em espaços urbanos.

Bridgit é um diário em video feito ao longo de um ano. Mostra a artista no sofá de sua casa ou em viagens de trens e barco, com uma narração feita por amigos que inclui leituras de seu diário em que descreve quando se descobriu gay e momentos em que foi confundida com um menino ou quando acharam que sua namorada era sua filha. “As histórias que estou contando, apesar de serem minhas e pessoais, também são histórias de muitas pessoas”, disse à BBC.

Em uma passagem, Prodger conta experiências que passou em banheiros públicos, como quando alguém gritou que havia um menino no banheiro feminino ou quando uma senhora hesitou entrar no toalete de uma balsa ao ver Charlotte se aproximando. “Achei que estava indo ao banheiro errado”, ela disse. Esses episódios são narrados sem rancor por parte da artista. “É algo que acontece na minha vida quase todos os dias”, diz ao The Guardian. “Estou secando minhas mãos e alguém vai entrar no banheiro, me ver e se sentir envergonhado. Eu sinto por elas. É um problema estrutural em que todos os envolvidos acabam constrangidos”.

Comovido pelo paradoxo que é a arte de Charlotte, o diretor da Tate Britain e jurado do Turner Alex Farquharson, disse: “Esse foi o uso mais profundo de um dispositivo tão prosaico quanto a câmera de um iPhone que vimos na arte até hoje”.

Tim Cook, CEO da Apple, também se manifestou, usando o Twitter para prestar sua homenagem.

Quando era jovem, nada dizia que Charlotte seria uma artista muito menos que ganharia um destaque desse nível. Suas notas na escola não foram suficientes para coloca-la em uma universidade, ela perdeu o interesse pelos estudos e trabalhou em uma diversidade de empregos, de lanchonete à limpeza, passando por telemarketing e por um laboratório da Kodak. Foi só quando fez um trabalho como modelo vivo na faculdade de artes de Glasgow que ela se conectou com a arte contemporânea e passou a conhecer os artistas. Pouco tempo depois, ela montou um portfólio e batalhou uma bolsa de estudos para estudar arte.

Esse ponto, inclusive, foi muito debatido na noite da premiação: o impacto da educação gratuita e de qualidade para a vida dos jovens. “Eu não estaria nessa sala hoje se não fosse pelo financiamento público que recebi da Escócia para o ensino superior gratuito e depois, na forma de bolsas de estudo e subsídios para apoiar não apenas a produção de trabalho, mas também os custos de vida”, disse a artista ao receber o prêmio. 

Seu trabalho mostra que uma pessoa com um celular e uma boa história para contar pode ir longe. Charlotte continuará a usar o telefone como ferramenta para seu próximo grande trabalho para a Bienal de Veneza, onde ela representará a Escócia, em 2020.

Veja aqui um pedaço de Birdgit:

Charlotte Prodger, BRIDGIT, 2016 – excerpt from Film London on Vimeo.


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