19.02.2020 / Moda / por

"Adoro meu corpo e o modo como sou": uma conversa sobre liberdade e estilo com Izaura Demari

Izaura Demari / Cortesia
Izaura Demari / Cortesia

Há tempos que a moda vem celebrando a juventude, esquecendo de uma faixa etária altamente consumidora, que é a mulher acima de 50 anos. Há pouco tempo, a carreira de uma modelo fashion começava cedo e terminava cedo, mas hoje vemos modelos de 50 anos ou mais desfilando ou fazendo campanhas. Mas de uns tempos para cá, com a ajuda de personalidades como Iris Apfel e documentários como Advanced Style, o mercado passou a olhar mais para o público mais velho. Recentemente, a escritora Joan Didion, 85, estrelou a campanha da Celine enquanto a atriz Charlotte Rampling, 74, está na campanha atual da Givenchy, ao lado de Marc Jacobs.

Claro, a participação da faixa etária dos 45 pra cima é ainda muito tímida, especialmente nesse momento em que a moda quer tanto atingir os millennials e a geração Z (sendo que grande parte dos Zs ainda nem consomem por conta própria). Mas é fato que está se olhando mais para pessoas mais velhas como um perfil de beleza, estilo e personalidade, afinal de contas, todos nós chegaremos lá e é reconfortante, de certa forma, ver exemplos de pessoas que chegam aos 80 sendo celebradas pela mídia como um exemplo.

“Antigamente se trabalhava até mais tarde, mas eram exceções, mulheres que foram muito importantes, viravam celebridades e trabalhavam mais tempo, como Naomi Campbell, por exemplo”, diz Anderson Baumgartner, sócio da Way Model. “Mas hoje isso se ampliou porque a moda pede não só a modelo em si, mas uma pessoa interessante e que tenha uma história pra contar. Hoje um número maior de mulheres mais velhas estão ai trabalhando e representando muito bem grandes marcas. A mulher olha pra ela e se identifica, independente da idade. Mudou e é bom que tenha mudado porque mulheres de 50, 60, 70 e 80 também gostam de moda”.

Aqui no Brasil, temos uma descoberta recente: dona Izaura Demari, prestes a completar 80 anos, é a senhorinha dos chapéus que virou febre no Instagram. Sua história é uma de libertação, conquista e amor próprio.

Izaura foi criada na roça, zona rural de Londrina (PR). É analfabeta, casou-se com 20 anos e teve três filhos (hoje tem ainda cinco netos e três bisnetos) e nunca trabalhou fora. Ficou casada por 42 anos e já faz 17 que seu marido faleceu. Se hoje ela sente falta de ter estudado (“só sei assinar o nome e muito mal”, seu filho Marcio a lembra que “há outras formas de aproveitar o conhecimento e a vida. Não é só a escola que forma o cidadão”.

Em uma conversa por telefone, ela conta que sempre foi vaidosa, mas não podia se arrumar porque sua mãe era muito enjoada e rígida. “Meu marido também era muito tradicional”. Foi após a sua morte que dona Izaura passou a viajar mais na companhia dos filhos e netos e, por uma indicação médica, precisava usar chapéus. E então começou a comprar muitos modelos de chapéu, que misturados aos brincos e colares que já gostava de usar, resultavam em looks que chamavam bastante atenção. “A gente não tinha essa cultura de ficar tirando foto, mas as pessoas paravam pra fotografá-la”, lembra seu filho Marcio, que acompanhou a entrevista. E aí, há dois anos, ele resolveu abrir um perfil no Instagram para postar os looks de sua mãe que causavam tanto na rua.

Mas foi no ano passado que uma de suas fotos viralizou e foi parar em plataformas como Catraca Livre. De lá, vovó Izaura deu entrevista pra programas da Globo e Record e virou influenciadora da terceira idade. Até na revista Piauí ela ganhou um perfil. Dona Izaura também esteve no SPFW no casting do desfile da Free Free.

Hoje, com mais de 45 mil seguidores no Instagram, ela é abordada em restaurantes, avião ou na rua. Mas não tem como passar por ela sem dar ao menos um sorriso, já que ela se arruma assim até mesmo para ir ao supermercado. “Gosto de me arrumar bem e não gosto de repetir roupa não. Curto um estilo cada vez mais doidão”, diz.

O sucesso fez com que muitas marcas passassem a procura-la e hoje Izaura recebe para postar fotos e ir a eventos. Ela já está com trabalhos confirmados com duas marcas de lingerie e uma de calçados. Na próxima semana vai a eventos em Ribeirão Preto e já está agendada para participar das comemorações pelo Dia Internacional da Mulher em São Paulo. E teoricamente esta é a primeira vez na vida que Dona Izaura trabalha e ganha seu dinheiro. “Estou gostando muito! Adoro viajar e passear”.

“Tudo o que ela usava era comprado, nós não aceitávamos parcerias porque o pessoal mandava coisas que não tinham nada a ver com ela. Eu achava chato ela receber e não usar”, explica Marcio. “Agora que estamos aceitando. Acabei vendo uma rede de outras influenciadores que mesmo não usando, fazem uma coleta do que ganharam a divulgam. O que não servir pra ela, a gente vai doar”.

No ano passado ela doou 80% de suas roupas para um asilo em Sorocaba (SP), mas ainda conta com uma coleção de 700 chapéus em seu closet. Bolsa e sapato já perdeu a conta. Hoje, ela e seu filho entram nos sites da China, pega um modelo de chapéu e já compra 30, um de cada cor. “No decorrer dos anos nós aprendemos a comprar. A gente não sabia comprar e gastávamos muito. Como eu era adepto a garimpar objetos antigos pra casa, eu sabia comprar pra casa mas não sabia comprar pra gente. Não temos gosto por nenhuma marca específica, vamos em qualquer loja. Mas pra não falar que não tem uma que a gente goste, é a da Zara, principalmente na semana que fazem liquidação!”, conta Marcio.

Hoje, dona Izaura vive com Marcio em Florianópolis e está cada vez mais ciente de como as fotos que começou a fazer sem nenhuma intenção estão relacionadas a uma mensagem de auto estima e liberdade. “Adoro meu corpo e o modo como sou”. E as amigas, o que dizem? “Ish, elas falam muito! A maior parte delas não está entendendo é nada”, ri. “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

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