Cami Talks: Olimpíada deve ser um espaço político?

Atletas não binários, protestos em campo e nas ruas e mais mulheres em jogo tornam essa edição uma das mais políticas da história

Os Jogos de Tóquio já começaram sob protesto / Foto: Reprodução
Os Jogos de Tóquio já começaram sob protesto / Foto: Reprodução

Estamos acompanhando a edição mais política da história dos Jogos Olímpicos, onde competições, atletas e medalhas dividem espaço com protestos e cobranças em relação a questões de gênero, raça e pandemia.

Idealmente, o evento celebra o brilhantismo dos atletas “em um espírito de amizade, solidariedade e jogo limpo”. As Olimpíadas são uma época em que, supostamente, as rixas políticas são deixadas de lado. Mas apesar de querer ser símbolo de uma união global, a Olimpíada acaba sendo inseparável da política por ser um dos maiores e mais caros eventos do mundo. Assim, ela acaba sendo um espaço de protesto, para começar contra o próprio Comitê Olímpico Internacional (COI), frequentemente ligado a escândalos de corrupção e acusações de sexismo.

A pandemia causada pelo COVID-19 esquentou o clima em torno dos Jogos. Dia 8 de julho, 15 dias antes do início do evento, o primeiro ministro japonês Yoshihide Suga, declarou estado de emergência no país. O Japão optou por manter a Olimpíada, mas sem espectadores. Em maio, 80% dos japoneses eram contra a realização dos Jogos, e a preocupação da população apenas aumentou, já que o país estava recebendo mais de 11 mil atletas de mais de 200 nações. Enquanto acontecia a Cerimônia de Abertura, protestos tomavam as ruas do Japão.

Sabemos o que está em jogo: bilhões de dólares em receitas de transmissão e um sentimento de orgulho nacional. Segundo o jornal Washington Post, o Japão gastou mais de US$ 20 bilhões preparando-se para os Jogos e enfrenta um grande déficit, precisando recuperar o máximo possível desses custos. E para aquecer ainda mais esse caldeirão, há eleições gerais em outubro.

Paridade de gênero

A Olimpíada de Tóquio já é a mais sustentável da história e também a que tem o maior equilíbrio de gênero (binário). Se voltarmos aos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em Atenas 1896, o fundador do COI, Barão Pierre de Coubertin, havia proibido as mulheres de competir. Quatro anos depois, em Paris, 22 atletas femininas foram convidadas para cinco modalidades esportivas femininas, enquanto quase mil homens participaram das demais competições. Este ano, os Jogos quase atingiram a paridade de gênero: dos cerca de 11 mil atletas olímpicos em Tóquio, quase 49% são mulheres, de acordo com o COI, marcando os primeiros jogos com “equilíbrio de gênero” da história. Nas Paraolimpíadas, ao menos 40,5% dos atletas serão mulheres, com cerca de 100 atletas a mais do que no Rio em 2016.

Mas as mulheres ainda precisam encarar situações absurdas no esporte, por ser uma área eternamente dominada por homens dentro e fora das arenas e, principalmente, nos espaços de comando e decisão. Um exemplo recente aconteceu neste mês, fora dos Jogos Olímpicos. O time feminino de handball da Noruega teve suas atletas foram multadas por terem jogado com shorts em vez de biquínis durante o European Beach Handball Championships.

A Comissão Disciplinar multou cada jogadora em 150 euros por elas “não estarem de acordo com os Regulamentos de Uniforme de Atletas definidos nas Regras de Jogo do Handebol de Praia”. Há muito tempo as atletas reclamam e dizem que o biquíni, além de humilhante, também não é prático do ponto de vista da performance. Naturalmente o ocorrido causou protestos e tweets vindos de todas as partes do mundo e até a cantora Pink se ofereceu para pagar a multa.

Uma pequena diferença entre os uniformes feminino e masculinos do handball na Noruega / Foto: Reprodução
Uma pequena diferença entre os uniformes feminino e masculinos do handball na Noruega / Foto: Reprodução

O próprio chefe dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Yoshiro Mori, renunciou de seu cargo este ano após dizer que “as mulheres falam demais e que as reuniões com muitas mulheres diretoras levariam muito tempo”. Os comentários desencadearam uma tempestade de protestos, Mori se desculpou, renunciou e sua posição foi ocupada por uma mulher, Seiko Hashimoto.

Transmissão não binária

Alana Smith, skatista dos EUA / Foto: Reprodução Getty Images
Alana Smith, skatista dos EUA / Foto: Reprodução Getty Images

A questão do gênero também está bem visível, especialmente no skate, com as skatistas roubando a cena e a presença de uma pessoa não binária, Alana Smith, que usa o pronome they/their (“elu” e “delu” em português). A skatista Karen Jonz, quatro vezes campeã mundial de skate vertical, estava como uma das comentaristas da modalidade no SporTV e usou a linguagem neutra para se dirigir à Alana, explicando aos telespectadores sobre a importância da transmissão ser respeitosa com todes.

Isso também ocorreu em um jogo de futebol feminino entre Japão e Canadá. A narradora da Globo Natalia Lara usou o pronome neutro na hora de falar sobre Quinn, atleta canadense que se identifica como trans não binário (nasceu com o sexo biológico feminino, mas não se identifica nem como homem, nem como mulher). Segundo o site OutSports, há cerca de 160 competidores nos Jogos de Tóquio que são assumidamente membros da comunidade LGBTQIA+, entre eles a nova sensação do esporte brasileiro, o jogador de vôlei Douglas Souza, que virou fenômeno das redes sociais.


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Esporte e Política 

Tommie Smith (centro) e John Carlos em protesto nos Jogos da Cidade do México, em 1968 / Foto: Reprodução
Tommie Smith (centro) e John Carlos em protesto nos Jogos da Cidade do México, em 1968 / Foto: Reprodução

Se antes atletas eram proibidos de qualquer tipo de demonstração política e racial em uma Olimpíada, agora o Comitê abriu uma brecha para as pessoas poderem se expressar – ainda dentro de uma esfera controlada.

Segundo o novo manual, agora os atletas podem se manifestar politicamente em zonas de entrevista nas instalações olímpicas, em coletivas de imprensa, em reuniões de equipe ou nas redes sociais. Porém, declarações e gestos políticos devem ser permitidos apenas se “não forem direcionados, direta ou indiretamente, contra pessoas, países, organizações e / ou sua dignidade” e se “não forem perturbadores”.

Aproveitando essa “abertura”, as jogadoras de futebol britânicas se ajoelharam no primeiro dia de competição das Olimpíadas de Tóquio, em um protesto contra a discriminação e o racismo. Jogadoras de futebol das seleções femininas dos EUA, da Suécia e da Nova Zelândia também se ajoelharam antes de suas partidas.

Este gesto, assim como o de levantar o braço com o punho cerrado, são símbolos históricos da luta antirracista –  este último rendeu o protesto político mais famoso da história dos Jogos, quando os atletas Tommie Smith e John Carlos levantaram os braços e abaixaram levemente a cabeça enquanto estavam no pódio dos Jogos da Cidade do México, em 1968 (foto acima). Pra mim é uma das imagens mais bonitas e fortes do esporte, pela riqueza de significado e sentimento que ela guarda.

Eles protestavam contra a discriminação e o preconceito racial nos Estados Unidos e tiveram suas carreiras completamente canceladas após o ato. Apenas muitos anos mais tarde, obtiveram o reconhecimento pela sua atitude e coragem. Desde 2005 há uma estátua para eles no campus da Universidade San José, na Califórnia, e em 2016, o presidente Obama os recebeu na Casa Branca.

Jogadoras das seleções dos EUA e Suécia se ajoelham antes da partida começar / Foto: Reprodução
Jogadoras das seleções dos EUA e Suécia se ajoelham antes da partida começar / Foto: Reprodução

Portanto, a Olimpíada é sim um lugar historicamente político. Apesar de ser onde vemos os atletas de ponta do mundo todo, ela ainda tem um modelo de negócios que atende aos interesses da elite, do consumo global e dos fluxos de investimento – espera-se que metade da população mundial veja a cobertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Então, mais uma vez, estamos “multipolarizados”: há quem adora assistir aos jogos, mas não celebra medalha de atleta bolsonarista; há as pessoas que são totalmente contra o evento acontecer numa pandemia; há os que têm consciência política, mas ama esporte e está a madrugada grudado na TV; e claro, há os que acham que esporte não é lugar de política.

Com uma geração nova assistindo às competições, provavelmente trazida pela adesão do surf e do skate aos Jogos, esperamos que esse ambiente seja cada vez mais diverso e habituado a conversas sobre raça e gênero.


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