08.03.2019 / Comportamento / por

Ib Kamara: nome quente da moda é de Serra Leoa e imprime sua visão sobre a masculinidade negra

Trabalho do stylist Ibrahim Kamara / Reprodução
Trabalho do stylist Ibrahim Kamara / Reprodução

“Quero criar imagens com substância”. Essa frase do stylist Ibrahim Kamara é a melhor tradução de seu trabalho. Substância é o que não falta em suas imagens que tem rodado o mundo em exposições, videoclipes, campanhas e capas de revistas.

Aos 28 anos, Ib Kamara está explodindo criativa e profissionalmente. Só no ano passado, ele virou editor at large da i-D, entrou para a lista das pessoas mais influentes da moda do Business of Fashion, fez ensaios para Vogue UK, para o ótimo fanzine de Alister Mackie, entre outros veículos que vão do indie ao mainstream. Neste ano, ele já assinou a capa da Vogue Italia de março, vestindo Amber Valetta e um editorial poderoso para a revista do jornal francês Le Monde.

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Serra Leoa

O frisson em torno dele tem um por que. Nascido em Serra Leoa, ele tem repensado a representatividade e a masculinidade negra com foco na África, criando imagens que representam uma nova África. Seu trabalho é carregado politicamente e aborda questões de gênero, diversidade e liberdade de expressão sob o ponto de vista de quem vive de fato todas essas questões.

Ibrahim critica a imagem que as pessoas têm da África, na maior parte das vezes, baseada no que vêem na mídia. “É um problema isso, porque o continente progrediu tanto e o que continua a se espalhar na mídia não é um reflexo preciso do que está acontecendo atualmente”, diz ao The Fader.

O que vemos em suas imagens são retratos de sua infância e juventude. Kamara cresceu em Gâmbia, país na África Ocidental onde a expectativa de vida é de 60 anos. Da África, traz referências da riquíssima cultura e tradições tribais (“o estilo deles é impossível de bater”), mas também da violência. De Londres, para se mudou quando tinha 11 anos, vem seu senso de contemporaneidade ocidental e memórias de sua mãe se vestindo para sair para a noite nos anos 90. “Ainda referencio esses looks no meu trabalho”, diz.

O ensaio que fez em dezembro do ano passado para o fanzine The Leopard, do stylist Alister Mackie, é um dos mais poderosos. Nele, um homem negro com roupas femininas com estampa de onça segura armas encapadas pelo mesmo tecido em imagens sexualmente carregadas e que remetem à violência de milícia.

 


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se’gal photographed by @kristinleemoolman for @alistermackie Zine @the___leopard styled be me hair by @jembomb

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Quem assina as fotos é sua amiga e colaboradora de longa data, a sul africana Kristin-Lee Moolman. Os dois se conheceram via Instagram até que Kamara foi encontrá-la em Johanesburgo. Passaram um mês juntos criando, revirando lixeiras e pesquisando em feiras locais em busca de roupas e objetos sem valor para então, construir figurinos e vesti-los na comunidade local. Essa série virou a exposição 2026 que ficou em cartaz na Somerset House, em Londres, em 2016. Foi a partir daí que as pessoas começaram a tomar conhecimento de seu trabalho.

Soft Criminals

Recentemente, junto com Kristin-Lee e Gareth Wrighton, o stylist organizou a exposição Soft Criminals, mais uma forte demonstração de moda com propósito. Impactados pelo o que eles chamam de Trexit (Trump + Brexit), o trio criou uma mostra baseada em três famílias fictícias: o dinheiro antigo, o novo rico e o clã que não faz as coisas por dinheiro. “Todas as três tem éticas questionáveis e o trabalho inteiro é uma crítica e uma sátira ao mundo moderno, com seu desperdício e corrupção”. As fotos são resultado de uma residência de três meses em Johanesburgo em que eles fotografaram amigos e locais e fizeram as roupas em colaboração com um alfaiate congolês para criar uma gama de personagens que bem poderiam estar em um filme. De novo, aqui, ele fala sobre uma nova identidade africana e faz um tributo para a África criativa. “Foco em fazer algo que me deixe orgulhoso. O meu background tem que estar refletido no meu trabalho. De onde você vem e o que você é, é o que o diferencia dos outros”.

Os três também colaboraram para um zine do museu Tate Britain chamado Stance,  explorando a recuperação da arte e da identidade cultural do século XVI
por meio de imagens de moda.

Foto da mostra Soft Criminals / Reprodução
Foto da mostra Soft Criminals / Reprodução
Soft Criminals / Reprodução
Soft Criminals / Reprodução

Na moda

O atual interesse da moda pela questão da diversidade é algo que, naturalmente, fala mais alto para Ibrahim e seu discurso é tão forte quanto suas imagens. “Acho que houve um progresso. Eu por exemplo, tive muita ajuda e pessoas que eu respeito mostram admiração pelo meu trabalho. Mas também acho que se não estivéssemos conseguindo a representatividade necessária, nós poderíamos criar nossas próprias plataformas. Hoje você pode simplesmente criar seu próprio mundo”.

Kamara chama a atenção para a geração atual DIY, que usa as redes sociais pra expor seu trabalho e conseguir emprego. “A hierarquia vai mudar e nós seremos nossos próprios chefes. Não há razão para esperar uma pessoa validar seu trabalho hoje. Você pode começar a criar em sua própria casa. Meu sobrinho, por exemplo, vive em Los Angeles e faz bonés. Seu negócio está indo super bem, com pessoas encomendando de várias partes do mundo de sua pequena loja. Uma década atrás isso seria impossível”.

Hoje, suas ideias de liberdade e aceitação passeiam por seu mundo sem fronteiras, mas nem sempre foi assim. Ibrahim nasceu em um ambiente bastante rigoroso e estava encaminhado para virar médico, assim como sua amiga e colaboradora, a fotógrafa Nadine Ijewere. “No final, tive que falar pros meus pais que não iria fazer medicina e foi uma conversa bem dura”, contou a Vogue UK. Ele então foi estudar arte no Westminster Kingsway College, mas dois anos depois foi para a Central Saint Martins, onde descobriu o styling e trabalhou como assistente de Judy Blame.

O stylist Ibrahim Kamara / Reprodução
O stylist Ibrahim Kamara / Reprodução

Ficar ao lado de um dos profissionais mais livres e rebeldes da moda britânica mudou sua própria relação com a moda e transformou a maneira como ele entendia a roupa. Foi o início de seu processo de libertação e empoderamento; foi quando se assumiu homossexual após tanto tempo se escondendo. E toda essa experiência explodiu em criatividade e representatividade. “É uma celebração de ser você mesmo e essa é uma coisa bem importante no meu trabalho. A ideia de que você reivindica o seu espaço e você revida, pelo menos uma vez na sua vida. Eu quero que homens negros, gays, heterossexuais, transgêneros, bi ou qualquer outra coisa lutem e se expressem. Essa é a nova África para mim”.

Kamara espera que a atenção da moda por essa questão não seja passageira. “Se for, pessoas como eu e meus amigos, teremos que continuar a falar sobre isso. Pra gente não é uma moda passageira, é a nossa realidade, é de onde viemos e precisamos compartilhar nossas histórias. A moda precisa abrir suas portas para outros como eu, que vieram do nada”.

Para ler ouvindo os meninos do FAKA, uma das inspirações de Ibrahim. “Eles estão reiventando o que está ao seu redor e representam a geração queer e transgênero e os meninos héteros da África que querem tentar algo novo. 

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