20.07.2020 / Moda / por

Moda.com: elegemos as melhores apresentações da temporada digital

os avatares em 3D da Sunnei
os avatares em 3D da Sunnei

A pandemia do coronavírus colocou o mundo em suspensão, impedindo que o ritmo e formas como a vida vinha sendo tocada se mantivesse. Por meses países inteiros praticamente pararam, viagens foram canceladas, transito de pessoas entre fronteiras foi proibido, comércio fechado e apenas idas ao supermercado para compras essenciais estavam permitidas. As indústrias criativas que dependem essencialmente da presença para existirem foram e continuam sendo as mais afetadas. O teatro, o cinema, o esporte e os eventos ainda não podem acontecer, ao menos em sua plena forma. Aqui se incluem os desfiles de moda, ferramenta motriz da indústria, peça chave no lançamento de novas coleções e na comunicação das marcas, das grandes as pequenas.

As cabeças do mercado criativo desde então vem sendo desafiadas a repensar o formato das passarelas e transporta-las para o digital, criar novas experiências que conversem com o grande público, explorando todas as possibilidades que a tecnologia hoje pode oferecer. As organizações das principais semanas de moda (Londres, Paris e Milão) então correram para anunciar suas versões digitais já que as semanas masculinas e Alta Costura de junho/julho não poderiam acontecer fisicamente. Foram mais de 100 conteúdos lançados durante os últimos dias em um esquema de première dentro de um calendário com dia e hora marcados, como acontecem os desfiles normalmente. Com um pouco mais de tempo e menos limitações, as marcas masculinas tiveram mais êxito do que as apresentações de Alta Costura, que seguem padrões muito tradicionais e dependem totalmente trabalho das equipe dos atêlies.

O FFW elege aqui seus conteúdos favoritos, que conseguiram contar boas histórias e exploraram as possibilidades entre o real e o digital com mais sucesso. E alguns que não conseguiram resultados tão satisfatórios e até erraram no tom.

< No ep16 do podcast Fashion Weekly, Camila Yahn e Augusto Mariotti também refletem sobre os desfiles digitais. Ouça abaixo >

 

1 – Dior Men

A Dior alcançou um resultado extremamente satisfatório com o formato digital (vídeos e fotos). Sem desfile mas não sem colaboração. Para dirigir o vídeo, Kim convidou videoartista britânico Chris Cunninghan e a fotógrafa Jackie Nickerson. O nome da vez na collab da coleção foi o artista ganês Amoako Boafo, que Kim conheceu no final do ano passado durante a Art Basel em Miami. Boafo tem sido cada vez mais reconhecido por suas pinturas de pontas de dedos de personagens negros em grande escala. As obras do artista trouxeram cores vibrantes para a coleção, que apesar de mais enxuta do que normalmente, foi a melhor apresentada por Kim Jones para a Dior até aqui.

 

2- Loewe

O processo de criação de Jonatan W. Anderson para a Loewe não foi fácil. Assim que explodiu a pandemia, a última coisa que ele queria ser era estilista. Apesar de já ter definido os nortes da coleção antes do covid-19, ele naturalmente acabou dando um outro sentido não apenas para a coleção em si, mas também para sua apresentação, já que seria uma estação sem desfiles. A experiência atual mudou a forma como Anderson pensa e enxerga a moda. “Acho que vai ser muito difícil voltar ao que era antes”, disse em entrevista ao BoF. “Se você é uma marca agora e não tem humildade e honestidade, está completamente ferrado. Eu luto para me envolver com isso. Não me importo mais com o que a indústria pensa”. Uma coleção brilhante, com foco no artesanal, apresentada de forma simples e sublime, narrada pelo próprio Jonathan.

 

3- Zegna

Um dos poucos desfiles “phygital”, um híbrido entre o físico e digital foi realizado pela Zegna, atualmente sob o comando criativo de Alessandro Sartori. Na combinação artisticamente integrada de vídeo e transmissão ao vivo lançada no último dia da Milão Digital Fashion Week, os modelos percorreram uma ‘passarela” de 3,3 km no meio da natureza, em Trivero, na Itália passando por dentro da fábrica da marca e terminando sobre o telhado do prédio, onde Sartori estava esperando para apresentar a coleção ao público, on-line. Ele a descreveu como uma rara oportunidade de vasculhar o coração e a alma da empresa. E, de acordo com Sartori, era assim que era o processo de design: explorar 110 anos de história, escolher tecidos, itens, imagens que ele gostava, “transformá-los com uma nova estética”.

 

5- Maison Margiela

A Maison Margiela apresentou sua coleção Artisanal com um documentário feito por Nick Knight em cima de uma ideia original de John Galliano, diretor criativo da marca. O doc é acompanhado por outros materiais, como fotos da coleção feitas por Rob Rusling e teasers, também assinados por Knight e nos permite participar de todo o processo criativo de Galliano e sua equipe, que abriram as portas da maison, na rua Saint Maur em Paris para o expectador. É delicioso poder assistir aos briefings de John por  chamadas de Zoom e mensagens de texto com seus colaboradores, um cigarro e outro entre as provas de roupas com seus modelos favoritos até culminar no vídeo final dirigido por Knight e sua equipe. São 52 minutos de pura paixão por moda e criação.

6- Gucci

Alessandro Michele deixou qualquer opulência de lado para revelar a coleção Epilogue, terceiro e último capítulo de uma sequência iniciada em fevereiro com um mega desfile em Milão. Acertou ao considerar o momento atual da Itália e do mundo ao mostrar a coleção de dentro pra fora, ao revelar cada looks como eles são pensados, com todas as anotações em post-its coladas sobre cada imagem, vestindo os looks em sua equipe de criação e estilo ao invés de modelos mantendo o máximo de segurança possível, ao transmitir a campanha da coleção sendo fotografada com o mínimo de pessoas possível no set, e dando a todos nós a possibilidade de assistir tudo protegidos pela tela de nossos celulares.

7- Sunnei

A Sunnei, dos designers Simone Rizzo e Loris Messina, foi das poucas marcas que se aventurou com as possibilidades das criações 3D na temporada. Eles apresentaram um vídeo onde 5 avatares de modelos começam vestindo uma seleção de peças já clássicas da marca em branco, como uma tela de canvas a ser preenchida. Aos poucos, e ao som e coreografia do hit Macarena, os looks vão sendo personalizados e ganhando cores e estampas que serão oferecidas aos clientes através de uma plataforma digital que será lançada em breve.

9- Prada

Nomeada de Multiple Views SS21, a nova coleção da Prada revelada por vídeo, foi interpretada sob a perspectivas de cinco criativos globais. Terence Nance, Joanna Piotrowska, Martine Syms, Juergen Teller e Willy Vanderperre  mostraram através de um video único suas múltiplas visões sobre o universo criativo de Miuccia Prada. Em performance entítulada de “O Desfile Que Nunca Aconteceu”, modelos desfilam pela Fondaziona Prada com a nova coleção da marca, a última assinada somente por Miuccia Prada, que a partir de setembro dividirá a criação com Raf Simons.

10 – Hermès

A estilista do masculino da marca, Véronique Nichanian chamou o artista Cyril Teste para criar e dirigir a performance “Hors Champ” (fora de campo em tradução literal) filmada dentro do QG da marca em Paris. Ganhou em emoção ao revelar os bastidores de um desfile sendo preparado, revelando todo o processo de produção que é sempre escondido do espectador. A trilha sonora tocada por piano e o ritmo da construção e narração do diretor dando as instruções e dirigindo os cortes das camêras fazem do vídeo da Hermès um dos favoritos da temporada.

O caminho não é por aí

Por outro lado algumas marcas escolheram formas e histórias menos conectadas com os tempos em que todos vivemos.

Na Dior feminina, Maria Grazia Chiuri escolheu construir um conto de fadas, em uma super produção digna de Hollywood e focar no sonho. Soou um tanto fora de lugar pelo escapismo excessivo e pela ausência de diversidade no casting, todo branco.

Já Simon Porte Jacquemus, o queridinho das influenciadoras digitais, tentou repetir a fórmula do verão passado ao realizar um desfile presencial numa plantação de trigo nos arredores de Paris. A apresentação rendeu momentos belos não fosse pela presença de convidados (muitos sem máscaras) que mesmo distanciados uns dos outros (ao menos durante o desfile) deixou uma sensação de falta de sensibilidade com tantas pessoas que ainda vivem em países onde a pandemia está fora de controle com números de contaminação e mortes que só crescem. Inclue-se aqui a Dolce & Gabbana, que se quer respeitou o distanciamento de 1 metro entre as cadeiras dos convidados. Essa é a moda que ainda continua no velho normal.


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